A transição para uma economia de baixo carbono deixou de ser uma opção para se tornar uma necessidade global. Este movimento, que visa substituir fontes de energia fósseis por alternativas renováveis, é impulsionado por uma combinação de urgência climática, inovação tecnológica e, crucialmente, por uma variedade de incentivos e investimentos públicos e privados. Neste artigo, exploramos o panorama mundial e as iniciativas brasileiras que estão moldando esse futuro energético.
A transição para uma economia de baixo carbono: incentivos e investimentos
A mudança para a energia renovável não é apenas um desafio tecnológico, mas também econômico, influenciada por contextos políticos, restrições regionais e pela necessidade de equilibrar custos e benefícios de longo prazo [1]. Neste cenário, as políticas públicas desempenham um papel central, destacando-se medidas fiscais, financiamento direto e regulamentações financeiras para ampliar os recursos para projetos sustentáveis [2].
Em nível global, observa-se o renascimento de ambiciosos planos industriais verdes por parte dos governos dos países desenvolvidos [2]. Um exemplo é a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), que identificou 20 países com missões específicas focadas em atingir a neutralidade de carbono (net zero), totalizando 83 missões específicas e 30 políticas de inovação baseadas nesse conceito. Ao todo, pelo menos 33 países já definiram metas de net zero entre 2030 e 2050 [3].
Os mecanismos econômicos para fomentar essa transição são variados. A precificação de carbono, por meio de taxas ou sistemas de comércio de emissões, é um catalisador essencial para corrigir falhas de mercado e direcionar investimentos para tecnologias renováveis. Por outro lado, os subsídios governamentais são fundamentais. Subsídios baseados em Despesas de Capital (Capex) são eficazes para o desenvolvimento inicial de mercado, enquanto incentivos baseados em Despesas Operacionais (Opex) promovem a eficiência de longo prazo. Dados revelam uma forte associação positiva entre subsídios governamentais e investimento do setor privado, especialmente em nações com quadros regulatórios abertos [1].
Além disso, instrumentos de finanças verdes, como os Títulos Verdes (green bonds), estão se tornando facilitadores vitais, muitas vezes atraindo taxas de juros mais baixas, um conceito conhecido como “greenium”. O volume de dívida verde, social, sustentabilidade e sustentabilidade-linked (GSS+) atingiu a marca de US$ 1,1 trilhão em 2024, elevando o total geral para US$ 5,7 trilhões [1].
A Emergência Mundial e a Descarbonização Energética
A urgência de descarbonizar nossas economias não é mais um objetivo distante, é uma necessidade presente que deve estar na vanguarda das agendas econômicas e políticas [1]. Existe um consenso científico sobre os efeitos das emissões de dióxido de carbono (CO2) e outros gases de efeito estufa (GEE) no aumento da temperatura global e nas mudanças dos padrões climáticos [2].
Um aumento de apenas 2 °C na temperatura média do planeta é passível de atrair consequências desastrosas, como maior parcela da população exposta a ondas de calor extremo, elevação do nível do mar e extinção de espécies. Para evitar esses cenários, o Acordo de Paris estabeleceu que uma transição energética segura requer conter o aquecimento global em até 1,5 °C [3]. Para cumprir essa meta, a participação das energias renováveis no suprimento total de energia primária deve saltar de 14% em 2018 para 74% em 2050 [4]. Após 10 anos do Acordo, os limites de aquecimento foram mantidos durante as negociações da COP30 (Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática do Clima), mas externalizadas as preocupações em torno do seu não cumprimento, o que implicará na adoção de medidas ambiciosas dos países-membros com vistas a frear os cenários catastróficos previstos.
A energia é o principal contribuinte para as emissões globais de GEE e, simultaneamente, o mecanismo mais poderoso para a transformação sistêmica [1]. De acordo com projeções do World Energy Report 2023, os principais elementos para reduzir as emissões globais de CO₂ até 2050 serão: energia solar e eólica (31%), eletrificação (17%), eficiência energética (16%), captura e uso de CO₂ (10%) e bioenergia (10%). O hidrogênio tem uma participação esperada de 4% nessa redução [3].
É fundamental que essa transição seja justa, considerando as diferenças entre países ricos e em desenvolvimento, pois a demanda por energia e o nível de emissões apresentam fortes desigualdades [3].
Os investimentos mundiais em cenário de mudança climática
A escala de investimentos necessária para a transição energética é colossal. Em 2024, o investimento em energia limpa deverá ser o dobro do montante destinado aos combustíveis fósseis [2]. O setor de energia limpa é intensivo em capital devido aos altos custos de instalação e aos pagamentos de longo prazo, exigindo investimentos maciços dos setores público e privado [4].
Nações ao redor do mundo estão mobilizando recursos sem precedentes. Os Estados Unidos anunciaram o Inflation Reduction Act (IRA), com uma estimativa de US$ 369 bilhões em financiamentos climáticos para o período de 2023 a 2032 [3]. Esse pacote de estímulos é estimado em US$ 1,7 trilhão em investimentos públicos e privados ao longo da próxima década [2].
Por sua vez, a Comissão Europeia anunciou o Plano Industrial do Acordo Verde (Green Deal Industrial Plan), com a previsão de aplicação de 510 bilhões de euros [3]. Esse plano busca vincular a agenda de redução de emissões à concessão de estímulos para o desenvolvimento de novas indústrias e tecnologias [2]. A China, mantendo uma política de maior continuidade, espera manter 56% da expansão global de renováveis no setor elétrico no período 2023-2028 [2].
Programas como o IRA e o Green Deal ilustram o comprometimento e a escala de investimentos necessários para assegurar o crescimento industrial e a geração de empregos qualificados no contexto da transição energética [3]. Evidências dos países do G7 mostram que o investimento em energia verde, o desenvolvimento financeiro e o rigor das políticas ambientais estimulam a transição energética sustentável no longo prazo [4].
Os Investimentos e Incentivos brasileiros para a transição energética
O Brasil não está à margem desse movimento e possui vantagens competitivas, como uma matriz elétrica majoritariamente limpa, vasto potencial para energias solar e eólica, liderança em biocombustíveis e reservas de minerais críticos [3]. O país estabeleceu metas climáticas robustas, com redução de 48,4% das emissões até 2025 e 53,1% até 2030, em relação a 2005, além de buscar a neutralidade de carbono até 2050 [2].
A principal âncora dessa estratégia é a política industrial Nova Indústria Brasil (NIB), que mobilizará mais de R$ 300 bilhões em financiamentos entre 2023 e 2026, com foco em missões que incluem a descarbonização e a transição energética. A NIB prevê um conjunto abrangente de instrumentos de apoio, incluindo mecanismos pelo “lado da oferta” (crédito, subvenção econômica, incentivos fiscais, participação acionária) e pelo “lado da demanda” (compras governamentais, conteúdo local) [3].
Dentro desse ecossistema, a Finep, vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), deve aplicar R$ 50 bilhões no âmbito da NIB, priorizando projetos de elevado grau de inovação e relevância para a transição energética. Esse compromisso já se reflete em números: os investimentos da Finep em temas de transição energética saltaram de uma média anual de R$ 318 milhões (2019-2022) para R$ 1,7 bilhão contratados apenas em 2023 [3].
Além da NIB, o Brasil conta com outros instrumentos fundamentais:
- Programa de Aceleração da Transição Energética (Paten): Instituído pela Lei nº 15.103/2025, o Paten fomenta o financiamento de projetos sustentáveis. Seus instrumentos incluem o Fundo Verde (um fundo de aval administrado pelo BNDES) e a transação tributária condicionada ao investimento em desenvolvimento sustentável [5].
- Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT): Com a recomposição integral de seus recursos, o FNDCT tem um orçamento de aproximadamente R$ 12,7 bilhões para 2024. Seu programa Mais Inovação Brasil tem como um de seus focos apoiar a inovação empresarial no contexto da transição ecológica [3][2].
- Fundo Clima: Reformulado em 2023, previu a aplicação de R$ 10,4 bilhões em 2024 para projetos reembolsáveis, incluindo energias renováveis [2].
- Incentivos Fiscais: A Reforma Tributária estabeleceu um diferencial competitivo para biocombustíveis e para o hidrogênio de baixa emissão de carbono, assegurando-lhes tributação inferior à dos combustíveis fósseis [2], já discutido no post “Marco Legal do Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono: o que muda agora e onde estão as oportunidades?” [6].
O hidrogênio de baixa emissão figura como uma das tecnologias prioritárias. O Brasil possui um potencial técnico para produzir 1,8 gigatonelada de hidrogênio por ano e já tem projetos anunciados totalizando US$ 30 bilhões [2]. A chamada pública “Mais Inovação Energias Renováveis”, da Finep, destinou R$ 250 milhões para desafios tecnológicos que incluem a produção, armazenamento e uso de hidrogênio de baixa emissão. Atualmente, o hidrogênio é a sétima temática mais relevante na carteira de projetos de transição energética da Finep [3].
Conclusão
A transição energética é um empreendimento global complexo, que exige a sinergia entre regulação, inovação e financiamento em escala. Como mostram as experiências internacionais, a combinação de precificação de carbono, subsídios inteligentes e finanças verdes é poderosa para direcionar investimentos. O Brasil, por sua vez, está se estruturando com um conjunto robusto de políticas públicas, como a Nova Indústria Brasil e o Programa Paten, além de contar com vantagens naturais e um crescente portfólio de projetos de inovação.
Neste contexto, a Protium atua como um vetor para a transição energética no setor do Hidrogênio no Brasil, apoiando projetos desde sua concepção, passando pelo desenvolvimento técnico, planejamento financeiro e apoio para captação de recursos. Além disso, tem seguido na fronteira do desenvolvimento de competências, capital humano e fornecedores com vistas à nacionalização de tecnologias de produção e desenvolvimento de tecnologias de aplicação de hidrogênio que sejam viáveis e práticas.
Referências
[1] Burduja, M.A.; Paraschiv, D.M., 2025. Economic Barriers and Incentives in the Energy Transition: A Comparative Analysis of Policy Frameworks and Market Responses. In: C. Vasiliu, D.C. Dabija, A. Tziner, D. Pleșea, V. Dinu eds. 2025. 11th BASIQ International Conference on New Trends in Sustainable Business and Consumption. Oradea, Romania, 26-28 June 2025. Bucharest: Editura ASE, pp. 301-309.
[2] Brasil. Ministério da Fazenda. Novo Brasil – Plano de Transformação Ecológica / Ministério da Fazenda (MF). — Brasília: MF, 2024.106 p.
[3] Hamatsu, N. K.; Souza, E. R. Transição energética, nova indústria brasil e o papel do ministério da ciência e tecnologia e da Finep. DOSSIÊ – Diversificação energética e transição ecológica. Revista Princípios nº170 maio/ago. 2024. DOI: https://doi.org/10.14295/principios.2675-6609.2024.170.003
[4] Liu, W.; Shen, Y.; Razzaq, A. How renewable energy investment, environmental regulations, and financial development derive renewable energy transition: Evidence from G7 countries. Renewable Energy 206 (2023) 1188–1197.
[5] Brasil. Lei nº 15.103, de 22 de janeiro de 2025. Institui o Programa de Aceleração da Transição Energética (Paten); e altera as Leis nºs 13.988, de 14 de abril de2020, 11.484, de 31 de maio de 2007, 9.991, de 24 dejulho de 2000, e 9.478, de 6 de agosto de 1997.
[6] Cazula, B. B. Marco Legal do Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono: o que muda agora e onde estão as oportunidades? – Blog Protium Dynamics, 17/11/2025.
Sobre o autor

Daniele de Fátima Amorim Silva atua como Cientista de P&D na Protium Dynamics, doutora em Economia e especialista em energia, regulação e políticas públicas. É pesquisadora bolsista no ITV/DS, com passagem por Oxford, UFRJ e USP.