Nacionalização Como Estratégia Tecnológica e Industrial

Nacionalização Como Estratégia Tecnológica e Industrial

O hidrogênio verde (H2V) é apontado como o combustível do futuro, mas para o Brasil, o futuro depende de uma peça fundamental: os eletrolisadores. Essenciais para a produção do H2V e para a descarbonização industrial, os dispositivos representam uma fronteira tecnológica estratégica para o país ainda marcada pela dependência de tecnologia importada. Nesse contexto, exploramos como o Brasil busca superar essa dependência por meio de estratégias de nacionalização para transformar seu potencial renovável em uma economia de larga escala e de alta competitividade, tornando-se autossuficiente no setor e protagonista no cenário sustentável global.

Para além do imperativo ambiental: uma estratégia de reindustrialização e geração de empregos

Fabricar eletrolisadores vai além da pauta ambiental: é uma estratégia de reindustrialização verde. Esse movimento tem o potencial de tracionar uma cadeia produtiva complexa, que vai desde metalurgia de precisão e processos químicos avançados até o desenvolvimento de softwares de gestão energética, o que corrobora as estimativas da Agência Internacional de Energias Renováveis (IRENA), que projeta a criação de milhões de empregos até 2050 por meio da economia do hidrogênio [1].

Principais vantagens comparativas brasileiras

Nacionalizar essa tecnologia significa transformar uma vantagem natural em soberania tecnológica e em desenvolvimento social. O Brasil tem uma posição única no cenário global: não precisamos importar energia limpa para abastecer a nossa indústria do futuro. É por isso que investindo na nacionalização dos eletrolisadores, o país une o útil ao agradável: de um lado, aproveita sua matriz elétrica, uma das mais limpas do mundo; do outro, passa a fabricar seus próprios bens industriais verdes: uma receita perfeita para deixar de ser apenas um exportador de commodities e se tornar um líder na produção soberana de hidrogênio verde.

O Programa Nacional do Hidrogênio (PNH2), estruturado pelo Ministério de Minas e Energia (MME), estabelece um plano estratégico para a consolidação do setor no Brasil, ditando o ritmo da transição com metas bem definidas no curto e longo prazo:

Criação de Hubs de Hidrogênio (até 2030): integração de infraestrutura, produção e consumo em polos estratégicos para viabilizar a adoção da tecnologia e inserir o país no mercado.

Escala industrial global (até 2050): assegurar a competitividade do Brasil no cenário internacional a partir da consolidação do movimento iniciado na década anterior [2; 7].

Parcerias entre centros de pesquisa e empresas aceleram a produção de eletrolisadores nacionais

O desenvolvimento da cadeia produtiva local é crucial para garantir a competitividade no setor. Nesse sentido, impulsionar a nacionalização das tecnologias para a produção de eletrolisadores, por meio de projetos estratégicos, dialoga com as diretrizes do PNH2. A parceria entre empresas e centros de pesquisa, por exemplo, tem se mostrado uma rota acessível para acelerar o avanço do setor. Algumas parcerias para a produção de eletrolisadores já estão traçando esse pioneirismo no país, como nos seguintes casos:

Hytron spin-off da Unicamp, adquirida pelo grupo alemão Neuman & Esser (NEA), possui liderança na integração de sistemas para eletrólise PEM (Membrana de Troca de Prótons) e alcalina, é a única produtora de eletrolisadores no Brasil, possuindo fábrica no estado de Minas Gerais cuja capacidade produtiva alcança 70 MW/ano.

Clark Solutions e o Centro de Células a Combustível e Hidrogênio (CECCO) do IPEN: foco na nacionalização dos equipamentos e em configurações modulares.

Eletrolisador sem membrana desenvolvido pela Escola Politécnica da USP: projeto vinculado ao Research Centre for Greenhouse Gas Innovation (RCGI) [4; 5].

Benefícios da nacionalização

Esses investimentos trazem vantagens estratégicas: a redução de custos operacionais (OPEX) que possibilita uma redução considerável dos custos de importação e das variações cambiais, tornando o produto brasileiro mais atrativo e competitivo no cenário internacional [7].

Mas não é só isso. A independência tecnológica também é uma vantagem estratégica. Isso porque o país possui matéria-prima suficiente para se tornar fornecedor da tecnologia. Mas isso depende da segurança em seus processos de fornecimento, sobretudo se conseguir evitar rupturas na cadeia global de suprimentos.

A produção local reduz a exposição à volatilidade do câmbio e aos riscos logísticos globais, tornando o projeto de hidrogênio verde brasileiro mais competitivo no mercado internacional.

Por outro lado, o país precisa superar os desafios ligados ao alto custo de produção (componente mais caro da planta do H2V); à necessidade de escala da produção para reduzir o custo unitário; e à necessidade de mão de obra especializada, que exige qualificação técnica (ligada ao OPEX) [7].

Escolha da rota tecnológica como estratégia de nacionalização

Escolher entre as tecnologias de eletrólise disponíveis – sejam as consolidadas rotas alcalinas (AWE) e de membrana polimérica (PEM), ou as emergentes, como a Membrana de Troca Ânica (AEM) e a eletrólise de óxido sólido (SOEC) – vai além do desempenho técnico e do retorno financeiro imediato [3]. É uma decisão estratégica. Essa escolha é o ponto de partida para uma estratégia de nacionalização robusta que prioriza tecnologias alinhadas às capacidades fabris e às cadeias de suprimentos locais. Nesse sentido, é imperativo que a seleção de modelos como AWE ou PEM seja acompanhada de políticas de produção de componentes em solo nacional, permitindo que o país reduza a dependência externa e se consolide como desenvolvedor de soluções para a descarbonização global.

A nacionalização da produção de eletrolisadores é a chave para o país se tornar autônomo e protagonista no fornecimento e uso da tecnologia, alinhando-se perfeitamente com os eixos de Ciência, Tecnologia e Inovação previstos nas diretrizes oficiais

Como a Protium se insere nesse contexto?

A posição da Protium Dynamics é clara: agente de conexão entre o desenvolvimento tecnológico, a engenharia aplicada e a descarbonização industrial. Ao atuar com soluções baseadas em hidrogênio verde, integrando eletrolisadores, células de combustível, componentes, projetos de plantas, consultoria e engenharia, a empresa contribui para transformar a nacionalização de eletrolisadores em uma estratégia operacionalmente viável, e não apenas em uma agenda industrial abstrata.

Além disso, a Protium atualmente desenvolve o projeto “Desenvolvimento de modelos de negócios com foco na nacionalização de eletrolisadores e aplicações de hidrogênio para descarbonização de processos industriais”, financiado pelo CNPq, visando apoiar a modularização de sistemas de produção de hidrogênio, a adaptação de soluções a diferentes escalas e setores industriais e o retrofit de ativos intensivos em emissões. A experiência da Protium no desenvolvimento de sistemas personalizados e aplicações de hidrogênio em setores como industrial, naval, ferroviário e rodoviário reforça a importância de integrar múltiplas tecnologias, validar subsistemas e converter conhecimento científico em produtos aplicáveis aos desafios reais da indústria brasileira.

Referências

[1] AGÊNCIA INTERNACIONAL DE ENERGIAS RENOVÁVEIS – IRENA. Perspectivas das transições energéticas mundiais 2024: Caminho para 1,5°C, Agência Internacional de Energia Renovável, Abu Dhabi, 2024.

[2] BRASIL. Lei nº 14.948, de 2 de agosto de 2024. Institui o Marco Legal do Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono; institui o Programa Nacional de Desenvolvimento do Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono (PNDH). Brasília, DF: Presidência da República, 2024. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2024/lei/l14948.htm. Acesso em: 3 mai. 2026.

[3] CAZULA, B.; SILVA, D. F. A.; AYAD, S.; REINERT, P. A. G.; DALAZEM, L. G. O papel do hidrogênio na redução de emissões em setores intensivos em energia. Ensaio Energético, 27 de abril, 2026.

[4] CLARK SOLUTIONS. Clark Solutions firma parceria com o IPEN para desenvolvimento de tecnologia nacional em eletrolisadores alcalinos. São Paulo, 17 mar. 2025. Mercados. Disponível em: https://clarksolutions.com.br/mercados/clark-solutions-firma-parceria-com-o-ipen-para-desenvolvimento-de-tecnologia-nacional-em-eletrolisadores-alcalinos/. Acesso em: 26 abr. 2026.

[5] GIACOMIN, Henrique. USP desenvolve eletrolisador sem membrana para a produção de hidrogênio verde. Jornal da USP, São Paulo, 9 dez. 2025. Rádio USP. Disponível em: https://jornal.usp.br/radio-usp/usp-desenvolve-eletrolisador-sem-membrana-para-a-producao-de-hidrogenio-verde/. Acesso em: 3 mai. 2026.

[6] PARCERIA ENERGÉTICA BRASIL-ALEMANHA. Mapeamento do Setor de Hidrogênio Brasileiro: panorama atual e potenciais para o hidrogênio verde. Brasília, DF: Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ) GmbH; Rio de Janeiro: AHK Rio de Janeiro, 2021. 113 p.

[7] SIFFERT, Nelson; ROCHA, Katia. O Mercado do hidrogênio de baixo carbono no Brasil: perspectivas e desafios até 2030. Brasília, DF: Ipea, fev. 2025. 55 p.

Daniele de Fátima Amorim Silva atua como Cientista de P&D na Protium Dynamics, doutora em Economia e especialista em energia, regulação e políticas públicas. É pesquisadora bolsista no ITV/DS, com passagem por Oxford, UFRJ e USP.

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